“MORRER É NÃO TER NADA NAS MÃOS”, NUNO COSTA SANTOS

Conhecendo como conheço o Nuno, quando me dirigi hoje à livraria SolMar, em Ponta Delgada, já sabia, de antemão, que me iria encontrar com um livro de poesia [mais um] de grande qualidade – e que vem acrescentar relevo à literatura feita por açorianos, não tivesse o Nuno nascido no Livramento.

Começando, este livro, pequeno, mas denso, muito denso, à solta, como se de um prólogo profético se tratasse, num alusão à ironia, recurso estilístico, o poeta deste livro é curto e grosso: deve ser deixada à solta, num claro sublinhar de afirmação pessoal crítico, a espairecer. A ironia, aliás, marcará alguns poemas deste livro.

Poeta multifacetado, poeta crítico, poeta observador, também em Segunda Fila, logo a seguir, notamos um olhar sociológico partindo de um elemento base: o poema, que vai ficar em segunda fila, tendo sucumbido ao rodoviário sistema, seja em Lisboa ou em Manila. Há, neste livro, de Nuno Costa Santos, um debruçar sobre o ideal poético, partindo-se da ideia, que já, no sujeito poético, se encontra bem sólida, de poesia: a poesia é uma questão que a linguagem tem com a vida, numa dicotomia de proximidade entre linguagem e vida, bichos que se conhecem mas nunca se hão de entender.

Poesia, diria eu, excelente, de um sujeito poético sólido, coerente, consistente, a mesma reflecte um existencialismo, de certa forma subversivo à morte: ou à vida? Eis a questão. Acelera com a pressa dos imperfeitos/num mapa sem poisos e localidades/Então abranda e deixa-se ultrapassar pelo passado/ que, esse sim, encontrou um sítio aonde chegar. O poeta é, claramente, um homem do leme na mestria da poesia, ou, devo dizer, Nuno Costa Santos ousou dizer aquilo que pouca gente diz – mas que, interiormente já sabe: o passado é uma questão inultrapassável, precisamente porque somos ultrapassáveis, enquanto seres humanos.

Há aqui uma questão que, neste livro, me parece de sobremaneira fundamental, e que se relaciona, aliás, com o próprio título da obra: a imortalidade, que surge pela própria questão da mortalidade do poeta, inalienável dele, e que vive com ele, para ele, no decurso dos seus dias. Afinal, a poesia é um antidoto que o poeta toma e que o devolve à condição divina da imortalidade? Eis a questão: tenho as costas protegidas pela poesia, caso alguém, como a Morte, o apunhale, como a Morte sempre apunhala pelas costas do homem, friamente e inesperadamente, insípida, psicopata, quase. Mas a poesia releva-se aqui como um antídoto – : o poeta sabe que os versos, por mais perdidos que possam ser, hão-de, no papel, ou no digital, permanecer como parte viva de alguém que os escreveu. Poemas que também não caem na ligeireza de serem só imortalidade: são, também, substância – também vida! – Se a poesia não diz a vida é um exercício que se dissolve. E, por isso, os versos protegem-me das notícias e da manha das árvores, em permanente concurso de boniteza, como uma mãe.

Crítico, e muito observador [sobre a observação leia-se Depois das palmas], também, há uma clara alusão à responsabilidade ambiental do poeta, como aquele que, em tempos de Aquecimento Global, tem de se acautelar de poluir ainda mais o meio literário. Nuno Costa Santos é, vejo, ele e o meio que o envolve; ele e o que passa e por onde passa; ele e o que vive; ele e o que sente; ele e ele mesmo, fiel à sua condição de poeta, consciente da sua condição mortal, mas esperando, algum dia, na pequenez generalizada do homem, resguardar-se na felicidade, ser feliz. Quem não?

Terminando, Nuno Costa Santos revela-se um poeta, mais do que Bom, também, e conhecendo-o como o conheço, fiel a si mesmo: mãos sem troco é exemplo disso, dessa humanidade que falta a muitos poetas, ou melhor dizendo, à grande generalidade das pessoas. Poeta humanista, poeta de estórias, poeta de pessoas: quem se lembraria, para além do Nuno, claro, de um Hermano Bizarro ou do Tio Jaime se não fosse este livro?

A poesia liberta-nos – e também serve para libertar o outro.

Os meus parabéns!

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