Num mundo de paraísos superficiais, como diria o nosso Urbano Bettencourt, onde a alma surge bronzeada pela poesia, mas não inteiramente feita dela, Leonardo, poeta jovem, aparece-nos com um Caderno de Mitos Pessoais que mostra uma necessidade de refazer os cálculos da poesia no caos de existir. E isso é de se louvar, principalmente porque a maioria dos jovens poetas não têm, cognitivamente, raciocínio lógico, para a álgebra dos erros, da poesia, sendo que, portanto, não lambendo as lombadas do que escrevem e entendendo que tamanho não é qualidade, não conseguem auscultar, igualmente, as próprias palavras que produzem – aliás, este Caderno de Mitos Pessoais nem lombada tem: é tão pequenino que nem a precisa. Mas transporta a álgebra dos erros de Leonardo, erros que todos os jovens cometem na sismicidade tectónica da juventude, com a precisão milimétrica de um bisturi preciso, e dissecando o corpo da vida ou o cadáver da morte, como só um bom poeta sabe dissecar – usando as suas próprias mãos.
estou vivo/tudo é violência – estes versos ressoam aos ouvidos do homem comum como um despertador do que é a putrefacção imóbil em que estamos mergulhados, enquanto espécie, suspensos, e ligeiros, em formas débeis de Cultura, em formas débeis de Educação, em superficialismos materialistas, em capitalismos da palavra que se vendem em grandes superfícies com rótulos amarelos a indicar descontos de dez por cento. Ao poeta, ao Leonardo, isto causa-lhe violência, mas ao mesmo tempo deve causar distância e solitude: Leonardo não é um jovem igual aos demais – pode sentir-se só; distante; insolado – mas é porque foi atirado para o centro de uma pólvora iluminada/ […] violência das violências.
Apesar da violência, e de estar cercado, Leonardo pode sentir-se em paz para consigo mesmo: conseguiu a distância que nem todos conseguem de um jogo que, à partida, está viciado e que vicia quem joga sem escolher, à partida também, jogar nele – não é mais um, apenas, como tantos outros, estéreis.
Com a mais solitária alusão ao amor – verdadeira geografia é a carne do que amamos – Leonardo distancia-se de corrente tributária, de ser apenas mais um na fila na Loja do Cidadão, mais um número de contribuinte, apesar de o vermos como um rapaz normal, humilde, e calado: apenas porque sabe a ingratitude divina por detrás de um caixa do supermercado. Leonardo não entra em vaidades literárias: não aparece; não é orgulhoso nem precoce. Espera. É paciente. Cuidadoso. Mede os seus passos. Com rigor. Não cede a impulsos no campus literário. É inteligente.
Concluindo, estamos perante um jovem poeta: um poeta de pessoalidades, com um trato que não é fino, nem de meias-verdades: um poeta frontal; que assume posições e que escreve de uma forma invulgar para a sua idade, diria. Espero, por fim, que ele continue sempre a cultivar-se, como tem vindo a fazer, e a cultivar-nos.
