“FLUVIÁRIO DAS HORAS PÓSTUMAS”, DANIEL GONÇALVES

O Daniel Gonçalves é aquele poeta que não se encontra em qualquer dia ou em qualquer lugar: ou temos realmente a sorte de o ter connosco ou não a temos, de todo – sem meios-termos. Já li dois livros do Daniel – Estes Assuntos Tristes e As Cores da Memória – enveredando, desta feita, para aquele que, à partida, seria, talvez, o mais desafiante – pelo menos para mim: Fluviário das Horas Póstumas.

A poesia do Daniel, e notei isto principalmente no decurso da leitura deste seu último livro publicado, relembrou-me uma passagem de um filme, Howl, biográfico de Allen Ginsberg, célebre poeta da geração Beat norte-americana: a poesia não se explica: é por isso que é poesia. Da mesma forma que B. não se explica: sente-se.

Não existem estrofes aqui – o fraco engenho de estender os versos, uns a seguir aos outros, sem direito a estrofe – mas existe algo muito mais precioso do que a mera formalidade métrica, rimática, formal ou estrófica: existe puro e genuíno amor às coisas. O poeta deste livro, o poeta Daniel, usa o amor como embraiagem da sua poesia – sem a mesma o carro não anda nem para trás nem para a frente: simplesmente fica parado no mesmíssimo sítio.

Esta poesia transmite amor – é uma declaração de amor e uma preocupação em amar à superfície da garganta – e é através deste amor que o poeta respira, como respira, pela poesia; e é através deste amor que o poeta assume querer ficar postumamente, algures, no coração da terra.

Esta poesia transborda amor de uma forma compreensiva em relação ao estado corrente do mundo e das coisas. Como um vão rio que passa, observando, mas entendendo as suas margens, e capacitando-se que todos somos, um dia, nascente e afluente, nado-vivo e estuário – que estamos em movimento – que passamos pelos lugares, mas que os lugares, também eles, nos podem amar, passar por nós, tal como somos, principalmente como somos. E este poeta, de certa forma, está atento a isso mesmo, e preocupa-se com isso mesmo.

O sujeito poético deste livro é também um altruísta – e um omnisciente. Porque insiste numa focalização que permite com que se ultrapasse a si mesmo, à sua circunstância e ao seu tempo histórico – Não te falo sem este pequeno desvio, que me leva a Arles -; é um poeta que esconde segredos, mas que, ao mesmo tempo, não sabe guardar um segredo num defeito genético dos poetas – é um poeta que tem de contar aquilo que sente, um pouco como todos: mas que o faz de forma exímia e desprendida de convenções: é livre.

O Daniel, autor de vários livros, inúmeras vezes premiado, tem uma relação especial com as pessoas – precisa tanto delas, mas, ao mesmo tempo, sofre com elas. E com os lugares – que são um outro tipo de pessoas, talvez mais especiais – porque não nos magoam tanto assim. Mas há, à mesma, no fundo, uma dor que é semente necessária do poema; uma dor que dói, como deve doer à terra as pontas afiadas do arado, nem que provocada pela lonjura das circunstâncias – pela distância.

Sem a sua Santa Bárbara, onde vive, desampara-se; cenário da sua poesia, poeta-geográfico, Santa Bárbara é pano de fundo, e sítio dos assuntos do coração, vitrina-mor dos seus versos, que certamente, ecoarão pela eternidade fora – não por toda a parte, somenos que toda a parte vale muito pouco, mas quanto baste no essencial: em B. Santa Barbara é início, lugar e termo; termo, início e lugar. E é no termo que tudo acaba – e começa.

Fluviário das Horas Póstumas entende, pois, uma relação autor-leitor que eu diria muito altruísta, palavra que já referi aqui, mas, ao mesmo tempo, estética: o poeta deste livro preocupa-se, não com a sua imagem, é um poeta livre, mas, em liberdade plena, em voo, à velocidade de cruzeiro, preocupa-se, plenamente, num leitor atento a entender as pulsações do mundo, de uma forma cuidada, depurada e limpa – que são as pulsações da poesia, pois que do mundo se faz a poesia: daí nascem, florescem Coisas a fazer, Coisas raras [que nos chamam à atenção], Horas póstumas [estas para que não se percam pelo caminho].

O poeta não quer, também, que percamos tempo – porque, provavelmente, ele mesmo, também já o perdeu: o poeta sublima a sua dor, cultivando com paciência e labor, para que nós, também nós, a possamos ganhar a ela – da forma mais heróica possível. O poeta quer que amemos; mas, mais do que isso: que estejamos atentos ao que está à nossa volta, e que não possamos perder de vista o essencial: que há sempre um lugar com o nosso nome.

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