O poeta que nos ensina que o papel não tem vaidade, e que aceita tudo aquilo que lá pomos, é o mesmo que, na verdade, não espera nada/ torno-me simplesmente ausente, numa referência a E.M. Ciorian [tradução de Manuel de Freitas].
Poeta maior da nossa literatura açoriana, Emanuel Jorge Botelho, de onde nos saiu a nossa Renata Correia Botelho, também poetisa, ou poeta, como queiram, apresenta-nos uma mundividência muito particular: uma mundividência muito comprazível com um homem extremamente acordado e consciente com as questões do seu tempo e do seu lugar, desperto para as situações que estão à sua volta – estou tão cansado de andar a ir morrendo/ à espera que o tempo saia do meu nome. Emanuel Jorge Botelho não é de complexidades ou de grandes abstracções: mas é de complexidades ou de grandes abstracções: e com isso quero dizer o seguinte – havemos de deixar uma marca neste mundo de qualquer modo, que já foi um mundo onde deixar marcas era deixar uma marca indelével, uma nódoa negra em nós mesmos, nem que seja pelo modo mais simples, o modo da poesia, que é, também, em si, à partida, um modo tão complexo? – andamos neste chão a dar ruas ao silêncio/ como se os pés temessem deixar marcas/ e houvesse um uivo de alataia/ para que a tirania tudo alcance.
resta muito pouco de tudo o que se quis/ […] e agora? – poeta que nos interroga até ao limite, Emanuel Jorge Botelho força o limite da interrogação até à exaustão da pergunta. Consciente, novamente, do ritmo das coisas – numa mundividência mordaz, numa consciência dolorosa, num despertar que dói – os dias vão indo caídos no papel/e rasgá-los não os lava/ da hora que vem depois – Emanuel Jorge Botelho, também, quiçá, pela experiência de vida já levada pela corrente das circunstâncias sabe, pressente e consente o que foi, o que é e o que virá ainda na sua vida, na sua poesia.
sem pressa de mudar de Lua/ com uma faca entre os dentes/e a corda da morte entre os pulsos, num uso da linguagem hiperbolicamente assustador, mas vivo, mas que prende o leitor de qualquer forma ao papel, que não tem vaidade, mas que ganha, através de Emanuel Jorge Botelho, a vaidade que perdeu com outros poetas, este mesmo poeta consegue transportar-nos para a necessidade de resiliência perante a circunstância mordaz da existência, do caos da existência, e para a necessidade de, perante essa vil condição onde somos inaudíveis de qualquer forma, sermos, talvez da forma mais cruel, audíveis – através, precisamente, da nossa espera, da nossa força interior.
Poesia taciturna, lonjura da noite e da morte, bela como as estrelas postas ao luar, a enfeitar a lua, Emanuel Jorge Botelho é um poeta como poucos no seu lugar e no seu tempo: com um livro pequeno, Fecho as Cortinas, e Espero, que li há já algum tempo, mas que reli agora, conseguiu-me transportar para as profundezas da condição humana, como tão bem sabe este poeta fazer: esta tão ambígua, tão díspar, tão bela, mas, ao mesmo tempo, tão obscura, e resvalando, na sua ânsia de finitude para as coisas, e para si mesmo, ao mesmo tempo, para uma necessidade, sóbria necessidade, de infinitude, para si mesmo e para o que está ao seu redor.
