José Martins Garcia começa-nos, logo, nesta Invocação a um Poeta, por ser baixo, sem ser raso, ligeiro ou superficial nas suas intenções: que é como quem diz – começa por ter a noção de que alguém é maior do que a sua própria altura, ou literatura, como todo o argonauta do verdadeiro conhecimento, e como todo o aprendiz da interrogação, que não se bronzeia somente com meias enciclopédias, sabe ser: diz-me desde esse além onde (presumo habitas/ (e digo habitas que entre os vivos não te encontro)/ se avistas os contornos da tua glória póstuma/ e se a glória póstuma te oprime ou te liberta. Há aqui a revelação de uma tentativa de comunicação com alguém que se mostra, da perspectiva do sujeito poético, distante [provavelmente falecido, mas tido numa glória que se transporta da vida, porque da vida, somente dela ousamos construir a nossa glória eterna]. Nessa perspectiva, da suposta transcendentalidade, há aqui uma clara afirmação ideológico-religiosa, quase, do José Martins Garcia.
Ou seja: alguém que se constrói de baixo para cima; e de cima para baixo – numa perspectiva de verticalidade e de horizontalidade ideológico-identitárias: não serão todos os poetas assim?
Depois, como todo o poeta, tem uma mundividência – que é sua: desde que te partiste não se deu um evento/que registo mereça nem no bem nem no mal/o carnaval é o mesmo e as máscaras perenes/a superfície e o fungo comungam no entulho – sempre com uso de recursos estílicos que lembram as Navalhas de Urbano Bettencourt, bem afiadas, diga-se de passagem; que lembram uma ironia, um sarcasmo feroz, uma incredulidade estilística, inteligentemente usada, perante uma sociedade que ousa desprezar uma figura maior, um bem maior que jaz já desaparecido. Não serão, assim, também, todos os bons poetas, activistas, no bom uso do sarcasmo, das navalhas afiadas, da ironia, com a espada apontada a uma sociedade melhor? – [Ergue-te, pois, soldado do Futuro,/
E dos raios de luz do sonho puro,/Sonhador, faze espada de combate! – Antero de Quental].
Interroga-se permanentemente e dolorosamente – diz-me […] diz-me. Não serão, todos os poetas, dúvidas deambulantes? Coração estasiados de dúvidas? Génios comidos pela traça da interrogação? Cansados? E, com tudo isto, e mais alguma coisa, eu sou mais triste/e revoltado ergo o punho contra a tua morte/ e a pena contra a tua sorte que me rói as horas/e os homens cada vez mais torpeza gregária – como todos os poetas, este também, há-de combater a vil morte, com os sulcos punhos do amor, até ao fim dos seus dias. Embora o extasie o cansaço, e a permanente ausência das coisas, na permanência dura no caos de existir – mas há-de valer a pena, se a alma não é pequena, que nos valha, ainda, amar pela luta contra a morte, o medo e o esquecimento: é esta a ventura de um poeta, como a de José Martins Garcia, que tenta invocar, tão fielmente, e de forma tão bela, neste caso, Vitorino Nemésio, recuperando-o dos escombros da morte, e dando-lhe Vida.
Não faz isto, um poeta? Mais do que sublimar a Morte, José Martins Garcia quer, ou procura, como todos os poetas, uma razão, profunda razão, para a Vida – procura amparar-se do caos de existir: diz ao menos que tudo esteve errado/o nosso nascimento as nossas confissões/a nossa depressão sem escadas para a vida/ e que a matéria por vil é um sonho mau – mas não creio que a encontre, pois que somente o silêncio produz resposta, e todo o silêncio é, em si, contraproducente.
Consciente de algo maior do que ele mesmo – o gesto meu verbalizado e cru/ não arranha os cilindros da máquina terrível – Martins Garcia, concluindo, tenta, como todo o bom poeta, supor imortalidade em Vitorino Nemésio – e consegue-o. Este poema é quase elegíaco. Arrisco-me. Porque é uma homenagem, invocando, à figura ímpar de Vitorino Nemésio; à poesia nemesiana; à glória de Nemésio. Assim, creio que estamos perante uma tentativa de imortalização, ante movimentos superficiais plácidos que insistem, à época de Garcia, em “passar à frente” do poeta invocado, ou “passar sobre” o mesmo, o que seria um erro histórico – tudo é cá erro em orgulho pervertido/quando não em vaidade vanitas vanitatum/ a vacuidade é esbelta quando o sol/desponta a leste e nos meus olhos morre.
Concluindo, e partindo para uma visão mais orgânica do poema em si, podemos ler, em Carlos Reis, que é algo habitual em textos de criação poética uma estrutura versificada – embora esta não seja, de todo, uma característica marcadamente distintiva, o que se verifica neste, com a existência do texto versificado e de estrofes – neste caso, de quadras [quatro versos em cada estrofe]. Em segundo lugar, temos, claramente, uma verbalização primeira do sentir, sendo esta a mais básica, primária ou primordial forma de expressão no modo lírico.
Também temos um ritmo próprio – e tudo em nós obedece a um ritmo – como o batimento cardíaco, o fluir do pensamento, ao discurso que o verbaliza -, e, também, neste poema há, marcadamente, um ritmo poético que marca o compasso das palavras, e a forma como é lido deve ser denotativo, e demostrativo desse mesmo ritmo.
Na lírica, o ritmo é, por definição, o suporte do sentido. Talvez tal facto seja relacionável com a qualidade emocional do pensamento em poesia ou com o facto, também, de no verso algo atingir a inteligência, ao passo de que, na prosa, por exemplo, esta encontra um objectivo para as suas observações.
Há também, aqui, nesta Invocação a um Poeta, algo que é marcadamente distintivo da poesia em particular: a fanopeia, realço principalmente, que se verifica quando se dá a projecção de uma imagem visual sobre a mente – diz-me desde esse além onde (presumo habitas/ (e digo habitas que entre os vivos não te encontro)/ se avistas os contornos da tua glória póstuma/ e se a glória póstuma te oprime ou te liberta.
