Uma das leituras que mais me marcou no ano transacto de 2019 foi, sem dúvida, esta: Deus e a Filosofia, do filósofo francês católico Étienne Gilson.
Ninguém me recomendou esta leitura. Antes, dei-me com ela numa prateleira, na Bertrand de Ponta Delgada e, como estava a escrever sobre o assunto, ou algo relacionado com o assunto, resolvi levar o livro. Em boa hora, diga-se. Este tipo de literatura, que se foca mais numa focalização histórica da teologia filosófica, é importante. Com efeito, em Deus e a Filosofia temos quatro capítulos fundamentais: Deus e a Filosofia Grega; Deus e a Filosofia Cristã; Deus e a Filosofia Moderna e Deus e o Pensamento Contemporâneo.
Vou tentar, nesta longa recensão, expor os principais pontos, em fases distintas, e dividindo-os em capítulos, do pensamento de Étienne Gilson, cruzando este pensamento com algumas ideias minhas.
Sobre Deus: Deus existe? Deus deve existir?
– a partir do capítulo «Deus e a Filosofia Cristã», de Étienne Gilson, in Deus e a Filosofia –
Platão/Plotino/Santo Agostinho:
- o Deus do Cristianismo aparece-nos, pela primeira vez, como um Deus judeu na sua unicidade, sendo impossível, assim, conseguir-se uma revolução mais abrangente em menos palavras ou de um modo mais simples do que dizendo simplesmente «Ouve, ó Israel: o Senhor nosso Deus é um só Senhor» [Moisés]. Esta afirmação, essencialmente religiosa, continha a semente de uma toda revolução filosófica crucial, pelo menos no sentido em que, se um filósofo qualquer, especulando em qualquer momento sobre o primeiro princípio e causa do mundo, sustentasse que o Deus judeu era o verdadeiro Deus, seria necessariamente levado a identificar a sua suprema causa filosófica com Deus.
- quando Moisés proclamou, assim, a existência deste Deus único e verdadeiro aos judeus, nunca se pensou que este Deus fosse uma «coisa», mas sim Deus dos seus pais, o Deus de Abraão, Deus de Isaac e o Deus de Jacob, num relacionamento pessoal, intimista – ou seja, de uma pessoa, supostamente de um Deus, para com outras pessoas; mas como chamar a esse Deus? «O que é» – Javé – porque Javé significa «O que é». No Êxodo, aliás, a esse respeito, podemos ler que Moisés simplesmente perguntou a Deus o Seu nome, dizendo-lhe: «Senhor, irei ao encontro dos filhos de Israel dizer-lhes: o Deus dos vossos pais enviou-me até vós. Se eles me perguntarem: qual é o nome Dele? O que lhes devo responder?». Deus respondeu a Moisés, então: «Eu sou aquele que sou». Disse: «Assim dirás aos filhos de Israel [referindo-se a Moisés]: O QUE É enviou-me até vós».
- sendo o génio judeu não um génio filosófico, mas um génio religioso, os judeus podem ser encarados como os nossos mestres na religião, da mesma maneira que os gregos o são para a filosofia. Tornando-se Javé o Deus universal de todos os homens, qualquer cristão convertido que estivesse familiarizado com a filosofia grega, compreendendo a importância da metafísica na sua nova crença, então o seu “Eu sou” – primeiro princípio filosófico – entraria em contacto com o seu primeiro princípio religioso, logo o seu Deus cristão seria “Eu sou”, assim como a sua filosofia – pelo que dizemos que a filosofia de qualquer cristão é «existencial» por direito próprio.
- não sendo, contudo, o Cristianismo, em si mesmo, uma filosofia, é uma doutrina essencialmente religiosa da salvação dos homens através de Cristo. A filosofia cristã surgiu, assim, na confluência da filosofia grega e da revelação judaico-cristã propiciando a filosofia grega a técnica para uma explicação racional do mundo e a revelação judaico-cristã, crenças religiosas de uma importância filosófica incalculável.
- a revelação cristã estava a determinar a existência como a camada mais profunda da realidade e supremo atributo da divindade. Mas o que é existir? Aqui importa fazer duas referências: a primeira é a Plotino e a segunda a Santo Agostinho. Quando Santo Agostinho, já convertido ao cristianismo, encontrou nas Enéadas de Plotino, encontrou também, nelas, não a filosofia pura de Platão, mas uma síntese original de Platão, Aristóteles e dos estóicos. E de Plotino sai-nos a ideia de Uno, citando Platão: do Uno, sai-nos o Intelecto, que é o conhecimento que subsiste por si só de tudo o que é inteligível. Como ele próprio é tanto sujeito que conhece como o objecto que é conhecido, está tão próximo de ser o Uno quanto é possível; contudo, como é afectado pela dualidade de ser sujeito e objecto, inerente a todo o conhecimento, ele não é, todavia, Uno. É inferior a ele.
- o Intelecto de Plotino é o lugar de todas as Ideias. Estas estão nele como uma unidade múltipla inteligível; participam eternamente na fecundidade que ele próprio deve à fecundidade do Uno. Em suma, o Intelecto é grande devido a toda a essa multiplicidade de seres individuais e distintos que eternamente fluem a partir dele. Nesse sentido, ele é um deus e pai de todo os outros deuses.
- depois, no Intelecto, tudo aparece primeiro, por ele e com ele.
- são estas, portanto, as duas causas supremas do universo de Plotino: no cume o Uno do Pármenides de Platão; imediatamente abaixo dele, e nascido dele, o Pensamento que se pensa a si mesmo de Aristóteles a que Plotino chama a Nous, ou Intelecto, e que ele concebe como o lugar das ideias de Platão. Assim, Santo Agostinho debruçar-se-ia, depois, sobre a seguinte questão: como exprimir o Deus do Cristianismo em termos herdados da filosofia de Plotino?
- acontece que Santo Agostinho deturpou Plotino e, consequentemente, Platão: um jovem, convertido ao Cristianismo, que, pela primeira vez, lê as Enéadas de Plotino encontrando imediatamente o Deus Cristão, com todos os seus atributos essenciais. Quem é o Uno senão Deus Pai, a primeira pessoa da Trindade Cristã? E quem é o Nous ou Intelecto senão a segunda pessoa da Trindade cristã, ou seja, o Verbo, tal como nos aparece no começo do Evangelho de S. João? Santo Agostinho encontra nas Enéadas de Plotino três noções essencialmente cristãs de Deus Pai, de Deus Verbo e da criação.
- o que é algo plenamente controverso. E porquê? O mundo de Plotino e o mundo do Cristianismo são rigorosamente incomparáveis; não há um único ponto num deles que possa ter equivalente no outro pela razão fundamental de que a sua estrutura metafísica é diferente na sua essência. Vivendo no século III, Plotino vivia arredado de um pensamento de cristandade, sendo que o seu mundo é um mundo filosófico grego, constituído por naturezas, cujas acções estão rigorosamente determinadas pelas suas essências. O Uno, que nunca poderá ser Deus. O Uno de Plotino é um Uno a partir do qual, como criação natural, eterna e necessária de todas as coisas por si, tudo flui eternamente a partir dele como uma radiação que ele próprio nem sequer conhece, porque acima do pensamento, acima do ser, acima da dualidade do ser e do pensamento. Se um Uno é determinado pela sua própria Natureza – por alguma coisa – existe uma incompatibilidade com o Eu de Deus – que não é determinado a partir de nada, não depende de mais nada. Daí a contestação.
- o deus de Plotino não poderá ser o Deus cristão, nem o mundo de Plotino pode ser um mundo cristão, afirma Étienne Gilson. Sendo o universo plotiniano tipicamente grego, Deus não é, nele, assim, nem a realidade suprema nem o princípio último de qualquer inteligibilidade. O Deus cristão, do Cristianismo, a partir de Santo Agostinho, nasceu, em toda a sua filosofia cristã, assim, a partir de uma leitura deturpada de Plotino e, mais atrás, e através deste, de Platão e de Aristóteles, como pudemos observar. Há, aqui, portanto falta de sustentação filosófica para a questão de Deus no Cristianismo, pese embora a sustentação que Javé tem, ainda, do ponto de vista meramente religioso.
- o mundo Cristão de Santo Agostinho comunga assim de duas premissas: por um lado, Deus, um da Trindade de uma substância única que existe por si própria; por outro lado, tudo o que não é Deus, por ter apenas uma existência que lhe foi dada. A linha divisória Cristã passa entre Deus, incluindo a sua própria Palavra gerada, e tudo o que é criado por Deus, ao contrário da linha divisória de Plotino, que passa entre o Uno e tudo o que é gerado pelo Uno. Assim, como uma de entre as criaturas de Deus, da sua Criação, o homem encontra-se aí excluído da ordem do divino. Existe, entre Deus e o homem, um completo infinito abismo metafísico que separa a completa auto-suficiência da Sua existência da intrínseca falta de necessidade da nossa própria existência. Aí reside o problema do transcendente: é por isso que desde o tempo de Santo Agostinho, postas as nossas limitações humanas, da existência humana, que nós temos tido grandes dificuldades perante a tarefa tremendamente difícil de chegar até um Deus transcendente. Como podemos chegar a «Ele que é?», a Javé?. Ora, Santo Agostinho resolve esse problema novamente de uma forma platónica: através da reminiscência de Platão, e voltando às leituras de Plotino, Santo Agostinho encontrou que Plotino referiu a dialéctica como uma tentativa da alma humana de se libertar de todas as imagens materiais com o intuito de contemplar as Ideias inteligíveis à luz do primeiro Intelecto, que é o deus supremo. Ora, Agostinho interpretou essa premissa usando o Evangelho de S. João, concluindo, “filosoficamente”, que, e referindo-se ao primeiro capítulo do mesmo, S. João havia “testemunhado a luz”, ela própria, que não era essa luz de Plotino [Agostinho lê Platão sempre à luz de Plotino, atenção], mas a Palavra de Deus, sendo Deus, que é essa verdadeira Luz do Intelecto que iluminou todos os homens que vieram ao mundo – Deus Verbo.
- ora, na verdade, a dialéctica platónica, tal como Platão e Plotino a compreenderam, foi apenas o método que permitiu ao homem atingir uma espécie de salvação filosófica despertando-o progressivamente para a completa consciência da sua própria divindade, posto que na doutrina de Platão, e ainda mais claramente na de Plotino, ser uma substância puramente inteligível, viva e imortal era exactamente ser um deus. As almas humanas são portanto outros tantos deuses. Quando um homem se torna filosofia, filosofa, se torna mente inteligível, verdade inteligível, está a comportar-se como um deus que se lembra de ser um deus – isso é a dialéctica – e não a Palavra de Deus, sendo Deus, que é essa verdadeira Luz do Intelecto que iluminou todos os homens que vieram ao mundo.
- somos Inteligências Individuais imanadas do Uno, portanto.
- mas como provar a existência de Deus do ponto de vista de Santo Agostinho? Provou-a como sendo a demonstração da única causa concebível da verdade no espírito humano. Sendo o Deus-Cristão, o seu Deus, um Deus deturpado de Platão, um Deus, portanto, que é sol inteligível, cuja luz brilha sobre a razão humana e lhe permite conhecer a verdade; ele é o mestre interior que ensina o homem a partir de dentro, também; as suas ideias eternas e imutáveis são as regras supremas cuja influência submete a nossa razão. Mas como demonstrar essa existência? Santo Agostinho fá-lo de forma bastante simples: ao conceber que a verdade é sobre-humana, e conhecendo o homem a verdade, prova-se a existência de Deus. Um argumento fraquíssimo.
- mas como devemos nós concordar com Santo Agostinho de que a verdade é objecto do conhecimento mais do que humano? Se Platão e Plotino consideram o homem um deus porque o homem é possuidor da verdade; mas o homem não é, de facto, um deus; o homem não possui, então, a verdade. Logo, admitindo e conhecendo a verdade, prova-se a existência, porque uma qualidade sobre-humana, dessa mesma verdade, à qual o homem, em condições normais, não teria acesso. É esta a lógica de Santo Agostinho.
- mas para Santo Agostinho, como vimos, a verdade é algo demasiado bom para ser, portanto, atingível pelo homem. E quando Santo Agostinho, com o seu Deus, que é o verdadeiro Deus cristão, importado de Platão, através de Plotino, nos tenta descrever a sua existência em termos filosóficos, recorre à identificação grega do ser com as noções já faladas de imaterialidade, inteligibilidade, imutabilidade e unidade. Tudo é divino; e como a verdade o é, a verdade é divina. Imaterial, inteligível, imutável – pertence a Deus, criador de todas as coisas. Mas quando se trata de definir essa Criação, Santo Agostinho compreende-a como uma dádiva divina.
São Tomás de Aquino/Aristóteles:
- depois temos São Tomás de Aquino, outro dos pilares da Igreja Católica: que faz uma “explicação” de Aristóteles – já não de Platão – que não passa de uma mera metamorfose à luz da revelação cristã.
- assim, quando Aristóteles postulava o seu primeiro Pensamento que se pensa a si mesmo como ser supremo, certamente que o concebia como um Acto Puro e como energia infinitamente poderosa; contudo, o seu deus era apenas o Acto de um Pensamento. Esta realidade infinitamente poderosa de um princípio que se pensa, certamente que merece ser chamada um Acto Puro, mas era um Acto Puro na ordem do conhecimento e não da existência. O supremo Pensamento de Aristóteles não era porque «Ele que é» – Javé -, não podia dar existência; daí que o mundo de Aristóteles não fosse um mundo criado; porque o supremo Pensamento de Aristóteles era não o puro Acto de existir, o seu autoconhecimento não implicava o conhecimento de todo o ser, tanto real como possível. O deus de Aristóteles não era, assim, como São Tomás de Aquino postulava, uma providência; ele nem sequer conhecia um mundo que não tinha feito e que nunca poderia alguma vez ter feito, porque ele era o pensamento de um Pensamento, que nem consciência tinha; a autoconsciência de «Ele que é» – Javé.
- ora, o mundo de São Tomás de Aquino, à luz de Aristóteles, é uma interpretação enviesada deste: um mundo em que «ser» é o acto por excelência, o acto de todos os actos, é também um mundo em que, para cada coisa, a existência é a energia original de onde flui tudo o que merece o nome de ente. Um mundo existencial tal não pode ser explicado por nenhuma outra coisa senão por um Deus supremamente existencial.
- para São Tomás de Aquino, inclusive, consegue-se ver o puro Acto de existir como alguém que vê a presença da causa em qualquer um dos seus efeitos, alcançando esta premissa por força de um conhecimento simplesmente metafísico, e afirmando que «todos os seres pensantes conhecem implicitamente Deus em toda e qualquer coisa que conhecem».
- mas relembremos o pensamento aristotélico: «assim, quando Aristóteles postulava o seu primeiro Pensamento que se pensa a si mesmo como ser supremo, certamente que o concebia como um Acto Puro e como energia infinitamente poderosa; contudo, o seu deus era apenas o Acto de um Pensamento. Esta realidade infinitamente poderosa de um princípio que se pensa, certamente que merece ser chamada um Acto Puro, mas era um Acto Puro na ordem do conhecimento e não da existência».
- Étienne Gilson, através de João Duns Escoto, revela-nos, por fim, pôr em causa a possibilidade de a razão humana alcançar, apenas através da filosofia, o Deus cristão absolutamente existente, e absolutamente todo-poderoso.
