“DEUS E A FILOSOFIA”, ÉTIENNE GILSON – parte II

Na Modernidade:

– a partir do capítulo «Deus e a Filosofia Moderna», de Étienne Gilson, in Deus e a Filosofia

Cogito, ergo sum

  – Descartes.

Descartes:

  1. na Modernidade surge uma mudança marcante em relação à Idade Média: esta mudança marcante começou a revelar-se quando na Primeira Parte do seu “Discurso do Método”, Descartes anunciou a sua decisão de «não procurar outro conhecimento senão aquele que» «poderia encontrar em» «si mesmo «ou no grande livro do mundo». Deus, a religião ou mesmo a teologia, quanto a ele, passam a ser matérias que não seriam objecto adequado para especulação filosófica. Como filósofo, procurava uma espécie de sabedoria completamente diferente: nomeadamente um conhecimento da verdade através das suas primeiras causas, passível de ser atingido apenas pela razão natural e dirigido para objectivos práticos temporais.
  2. mas bem: o que é novo em Descartes era a separação real e prática entre a sabedoria filosófica e a sabedoria teológica. Onde São Tomás de Aquino distinguia com o objectivo de unir, Descartes dividia com o objectivo de separar.
  3. Descartes estava, assim, interessado num tipo de sabedoria completamente diferente, ou seja, no conhecimento racional «das primeiras causas e dos verdadeiros princípios a partir dos quais podem ser deduzidas as razões de tudo aquilo que é possível conhecer». É esse o bem natural e humano «considerado pela razão natural sem a luz da fé».
  4. mas cuidado: Descartes não podia fingir que não era cristão; assim, nunca duvidou, por um momento, de que o primeiro princípio de uma filosofia totalmente separada da teologia cristã acabaria por revelar o mesmo Deus que a filosofia nunca tinha conseguido descobrir enquanto permanecera alheia à influência da revelação cristã. Não podemos concordar com ele.
  5. sendo o Deus de Descartes um Deus inequivocamente cristão, a fundação comum para as demonstrações cartesianas da existência de um tal Deus é a ideia clara e distinta de uma substância pensante, não criada e independente, que é naturalmente inata ao espírito humano. Como? Se investigarmos a razão por que uma tal ideia existe dentro de nós, somos de imediato levados a postular, como única explicação plausível, a ideia de um ser que possui todos os atributos que se ligam à ideia que fazemos desse mesmo ser, ou seja, algo autoexistente, infinito, todo-poderoso, uno e único. Mas é suficiente, isto, para nós considerarmos directamente a ideia inata que temos dele, assegurando-nos, a nós mesmos, que Deus é ou existe? Ele pode não existir! No entanto, quando pensamos mais atentamente em Deus, depressa concluímos que a não existência de Deus é, estritamente falando agora, impensável. A nossa ideia, inata, de Deus é a de um ser supremamente perfeito; dado que a existência é uma perfeição, pensar num ser supremamente perfeito a quem a respectiva existência é negada é pensar num ser, igualmente, supremamente perfeito a quem é negada a respectiva perfeição – o que é contraditório, em si. Daí, e postula Descartes, que a existência, cognitivamente, seja inseparável de Deus e, consequentemente, ele seja ou exista, necessariamente.
  6. contudo, desmontando esta origem de uma ideia metafísica de Deus de Descartes: se todos os homens tivessem essa ideia cognitiva de Deus, inata de Deus, Moisés, na Bíblia, não teria perguntado a Javé o seu nome; ou a resposta de Javé teria sido: “Que pergunta é essa? Tu já sabes!».
  7. em suma, aquilo que deu a esta ideia de Deus o seu pleno valor no espírito de Descartes foi a sua notável capacidade para se tornar no ponto de partida de uma interpretação puramente científica do mundo. Sendo um Deus metafisicamente verdadeiro, ele dotava a ciência com os princípios da física verdadeira. Assim, e porque mais nenhum outro deus podia dotar a verdadeira física com os princípios de que esta necessita para uma exposição sistemática, salvo o Deus de Descartes, só este poderia ser o verdadeiro.
  8. o seu Deus não era simplesmente um puro Acto de existir que não tinha causa para a própria existência; era, sim, como uma energia infinita de autoexistência que, por assim dizer, era para si mesma a causa da sua própria existência. É difícil, para todos os efeitos, falar de um Deus simultaneamente causa e efeito.
  9. quando São Tomás de Aquino, de quem já falamos, transfigurou o supremo Pensamento de Aristóteles no «Ele que é» cristão, colocou um primeiro princípio filosófico ao nível de Deus. A partir deste mesmo Deus cristão, Descartes utilizava-o agora como primeiro princípio filosófico. Descartes, como cristão que era, acreditava num Deus quem era exactamente o mesmo Deus que, como filósofo, ele sabia ser a primeira causa de todas as coisas; no entanto, permanece o facto de, como filósofo, Descartes não ter lugar para esse Deus e para a sua perfeição auto-suficiente. Para ele, Deus era em si um objecto de fé religiosa; o que era objecto de conhecimento racional, metafísico, era Deus tomado como o mais elevado de todo os «Princípios da Filosofia».
  10. a teologia natural de Descartes explica, assim, toda a existência de um mundo cartesiano: era um universo exclusivamente mecânico, onde tudo poderia ser explicado pelas propriedades geométricas de espaço e pelas leis físicas de movimento. Se olharmos para Deus como a única explicação possível para esse mundo, o seu principal atributo tem necessariamente de ser, não a contemplação do eu próprio Ser infinito, mas a sua omnipotência, que é causa de si própria, fonte da sua causalidade criativa. Em vez, portanto, do Ser auto-suficiente e que se conhece a si próprio de São Tomás de Aquino, temos agora uma energia de existência que é causa de si própria.
  11. como a única função filosófica do seu Deus era ser uma causa, o Deus cartesiano tinha de possuir todos os atributos requeridos para o criador de um mundo cartesiano. Sendo esse mundo infinitamente projectado no espaço, o seu criador tinha de ser infinito; sendo esse mundo puramente mecânico e destituído de causas finais, o que era verdadeiro nesse Deus tinha de ser dessa maneira porque Deus o tinha criado como um desígnio livre da sua própria vontade.
  12. o mundo mecânico de Descartes assentava na ideia da conservação da mesma quantidade de movimento no universo; daí que o Deus de Descartes tivesse de ser um Deus imutável e que às leis estabelecidas pela sua vontade não fosse permitida a mudança, a não ser que este mundo fosse primeiro destituído.
  13. mas um Deus cuja verdadeira essência seja a de ser um Criador não é de todo um Deus cristão. A essência do verdadeiro Deus cristão não é criar, mas ser: «Ele que é» também por criar, se assim o quiser; mas Ele não existe porque cria, não, nem a Ele próprio; Ele pode criar porque existe supremamente.
  14. o Deus de Descartes era um nado-morto. Era um Deus do Cristianismo, como vimos, reduzido à condição do princípio filosófico.
  15. ele já não é «Ele que é», mas antes «O Autor da Natureza» – o que não corresponde ao Deus cristão, que sempre fora, certamente, o Autor da Natureza, mas também fora infinitamente mais do que isso, ao passo que, depois de Descartes, Ele estava destinado a tornar-se progressivamente nada mais do que isso.

 

A partir do «Discurso do Método», CAP. IV, de René Descartes

– algumas citações e respectivas refutações –

                                                                                          

  1. no seu Discurso do Método, IV, Descartes afirma, numa primeira instância, que, porque os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, eu quis supor que nada há que seja tal como eles o fazem imaginar […] rejeitei como falsas […] todas a razões de que até então me servira nas demonstrações Resolvi supor que tudo o que até então encontrara acolhimento no meu espírito não era mais verdadeiro que as ilusões dos meus sonhos. Mas, logo em seguida, notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, eu, que assim o pensava, necessariamente era alguma coisa. E notando que esta verdade – eu penso, logo existo – era tão firme e tão certa que todas as extravagantes suposições dos cépticos seriam importantes para a abalar, julguei que a podia aceitar sem escrúpulo, para primeiro princípio da filosofia que procurava
  2. depois, e seguindo uma ordem metodológica, que não a ordem do Discurso do Método, Descartes afirma que visto conhecer algumas perfeições que não possuía, não era o único ser que existia […] mas que necessariamente devia existir algum outro mais perfeito, do qual dependesse e de quem tivesse recebido tudo o que possuía. São inteiramente verdadeiras as coisas que concebemos muito clara e distintamente, não é certo senão porque Deus é ou existe, ser perfeito de que nos vem tudo que em nós existe. Donde se segue que as nossas ideias ou noções, coisas reais que provêem de Deus, não podem deixar de ser verdadeiras na medida em que são claras e distintas [retomando um contra-argumento já citado: se todos os homens tivessem essa ideia cognitiva de Deus, genuinamente e verdadeiramente inata de Deus, Moisés, na Bíblia, não teria perguntado a Javé o seu nome; ou a resposta de Javé teria sido: “Que pergunta é essa? Tu já sabes!»].
  3. De maneira que restava apenas admitir que tivesse sido posta em mim por um ser cuja natureza fosse verdadeiramente mais perfeita do que a minha, e que mesmo tivesse em si todas as perfeições que eu poderia idealizar, isto é, que fosse Deus, para dizer tudo numa palavra [portanto: eu não sou suficientemente perfeito para idealizar um ser perfeito, enquanto ser humano, enquanto espécie imperfeita para Descartes – e aqui discordamos. Mas tenho, em mim, a ideia de um ser perfeito: ou seja, sendo imperfeito para idealizar um ser perfeito, só um ser perfeito seria capaz de idealizar, num ser imperfeito, um ser perfeito. Agora pergunto: qual o interesse, maior interesse, que um ser perfeito, como o Descartes, como o Deus de Descartes, teria em ser reflectido ou idealizado interiormente, em seres imperfeitos [utilizando os termos cartesianos]? Penso que nenhum. Assim, a ideia parte de uma revelação bíblica, religiosa, meramente, que, difundida, espalha-se, pela educação e formação, muitas vezes religiosa, mas única e exclusivamente a ideia de Deus parte do homem, com o homem, e para o homem. Não de Deus].
  4. […] E tendo notado que há no eu penso, logo existo, que me garanta que digo a verdade, a não ser que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir, julguei que podia admitir como regra geral que é verdadeiro tudo aquilo que concebemos muito claramente e muito distintamente; havendo apenas alguma dificuldade em notar bem quais são as coisas que concebemos distintamente. […] à afirmação é verdadeiro tudo aquilo que concebemos muito claramente e muito distintamente, refuto: podemos conceber determinadas ideias – que não nos são inatas [o homem, geralmente, não nasce com ideias inteligíveis pré-concebidas], mas que nos foram postas por alguém, sempre, educando e formando a nossa inteligibilidade para essa determinada ideia, de acordo, normalmente, com uma Cartilha Educativa ou mesmo Religiosa, e que é uma ideia que nunca é minha, mas de um todo colectivo, transmitida por gerações e gerações e gerações: e assim se mantêm as mesmas mentiras, se mantêm as mesmas verdades irrefutáveis pelos séculos e séculos – pelo passa-a-palavra, sem qualquer espírito crítico e refutatório-argumentativo. Descartes confunde, aqui, parece-me ideia inteligível com existência: uma coisa não implica a outra – daí o termo ilusão, que, segundo a teoria cartesiana, então não seria mais do que uma substância oca e desprovida de qualquer tipo de significado existencial. Volto a repetir: a ideia parte de uma revelação bíblica, religiosa, meramente, que, difundida, espalha-se, pela educação e formação, muitas vezes religiosa, mas única e exclusivamente a ideia de Deus parte do homem, com o homem, e para o homem. Não de Deus].
  5. lembrei-me de procurar donde me teria vindo o pensamento de alguma coisa de mais perfeito do que eu era – [refuto: nada é mais divino do que o que é gerado, pelo Uno, através do Intelecto: do que o ser humano, que Descartes recusa, e refuta, como divino, atribuindo a divindade exclusivamente ao seu Deus Cristão]; e conheci com evidência que deveria ter vindo de alguma natureza que fosse efectivamente mais perfeita [refuto: ver refutação anterior].

21.. […]mas o mesmo não acontecia já com a ideia dum ser mais perfeito do que o meu; porque tê-la formado do nada era manifestamente impossível; e, porque não repugna menos admitir que o mais perfeito seja uma consequência e uma dependência do menos perfeito do que admitir que do nada alguma coisa proceda [aqui estamos em desacordo: tudo provém, exactamente, do Nada], não podia também aceitar que tivesse sido criada por mim próprio.

 Malebranche:        

  1. surge-nos então Malebranche. Ora, o Deus de Malebranche é «para Si próprio a Sua própria luz, Ele descobre na Sua própria substância as essência de todos seres e todas as suas possíveis modalidades e, nas Suas decisões, as suas existências bem como todas as suas modalidades reais». Onde Descartes invadiu a teologia natural deste? No ponto em que Malebranche concebe um Deus que nada vê senão a sua própria substância e que vê aí todos os seres juntamente com as suas relações inteligíveis. Aparentemente, é o oposto do Deus de Descartes – mas, curiosamente, a diferença entre estes dois Deuses deve-se ao facto de Malebranche ter, precisamente, cartesianizado aquele que era, para si, o insuficientemente cartesiano Deus de Descartes. O mundo de Descartes fora, pois, um mundo de leis inteligíveis, estabelecidas pela vontade arbitrária de um Deus omnipotente; a originalidade de Malebranche foi conceber um Deus como um mundo infinito de leis inteligíveis.
  2. contudo, o Deus da sua filosofia não é o mesmo Deus da sua religião. No que diz respeito ao seu método filosófico, Malebranche era cartesiano. Uma das mais profundas exigências, e provavelmente a exigência mais profunda de todas, do método cartesiano, é nunca ir das coisas para as ideias, mas pelo contrário ir das ideias para as coisas. As existências são dadas a um cartesiano apenas através e em essências. O próprio Deus não podia ser postulado como existindo de facto se não fosse o facto de a sua ideia estar em nós e de, uma vez que se encontra aí, tal implicar a sua existência. Tal como diz explicitamente Descartes: uma vez que não conseguimos separar a existência da ideia de Deus, Deus necessariamente é ou existe. A posição de Malebranche permaneceu substancialmente a mesma: «Não se pode ver a essência do Infinito sem a sua existência, a ideia de Ser sem ser». Essa também foi a posição de Leibniz – «ou em que a possibilidade é suficiente para produzir realidade».

Espinosa:

  1. mas, dos sucessores de Descartes, o mais metafísico foi Espinosa, porque, com ele, alguém disse, por fim, sobre Deus o que o próprio Descartes devia ter dito, se pensasse, não como cristão, mas como filósofo.
  2. para começar, Espinosa não tinha religião. Era um filósofo puro. O seu Deus é um ser absolutamente infinito ou substância, que é «causa de si própria» porque a sua essência implica existência. Deus, assim, não pode não existir porque, para Espinosa, «a existência de substância resulta apenas da sua natureza, porque isso implica existência». Vamos então conceber um universo onde tudo o que é existência expressa apenas o poder de existir, esse que pertence à sua natureza; apenas um ser pode ser postulado como existindo necessariamente nele. Eu tenho de existir para Ser. Assim, Deus existe e age a partir da necessidade da sua própria natureza, não é nada mais do que uma natureza, portanto: ele é a própria natureza – Deus sive Natura [Espinosa]. Deus, para Espinosa, é a essência absoluta, sendo que, tudo o que é, implica necessariamente essa essência eterna e infinita de Deus.
  3. Deus passa a ser «aquilo que é».

Refutação a Espinosa:                                 

  1. mas Espinosa tem uma limitação: que se prende com o facto de voltarmos a compreender novamente o Ser enquanto existência da essência [eu existo, logo sou] e não como essência da existência [eu sou, logo existo]. O Deus de Espinosa é «essência da existência» [eu sou, logo existo] – eu sou a Natureza, palpável e visível – Deus sive Natura, logo existo. Mas como comprová-lo cientificamente? Como sabê-lo, concretamente? Não pode ser algo mais, outra coisa que não Deus? Não há, pese embora o ateísmo de Espinosa, nem uma base religiosa nem filosófica no mesmo: porque peca por uma questão Histórica e por uma questão Filosófica: não faz devir, em nós, a lógica por detrás da Natureza, ou seja, não prova, concretamente, Deus sive Natura, assim como, contrapondo com «a essência da existência» a «existência da essência» metafísica de Descartes e de Malebranche, substitui um Javé – que, biblicamente, no Antigo Testamento, nos significa «Ele que é», um Ser, por Aquilo que é. Substitui-se Ele por Aquilo, ou seja, teríamos de voltar ao ponto da «existência da essência», para que Deus nos aparecesse, como está comprovado biblicamente, como «Ele que é». Não obstante isso, Descartes falha, como já vimos, no pressuposto de: se é «existência da essência» então por que razão Moisés pergunta a Deus o seu nome, não lhe devia ser implícito, inata tal condição, tal sabedoria?
  2. o Deus do Cristianismo ainda não tem uma base filosófica plausível. Apenas religiosa.

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