Na Contemporaneidade
– a partir do capítulo «Deus e o Pensamento Contemporâneo», de Étienne Gilson, in Deus e a Filosofia–
Kant e Comte/ Étienne Gilson:
- importa ter a noção de que a posição actual sobre o problema de Deus é totalmente dominada pelo pensamento de Immanuel Kant e Auguste Comte.
- como Deus não é um objecto de conhecimento empírico, palpável, não temos qualquer conceito dele. Em consequência disso, Deus não é objecto de conhecimento e aquilo a que chamamos teologia natural não passa de conversa fútil. Com a crítica de Kant e o positivismo de Comte tudo se torna totalmente diferente. Como Deus não é um objecto apreendido nas formas a priori da sensibilidade, do espaço e do tempo, não pode ser relacionado com mais nada através da categoria da causalidade, que já vimos.
- daí, Kant conclui que Deus pode bem ser uma ideia pura da razão, ou seja, um princípio geral de unificação das nossas cognições; ele não é um objecto de cognição. Ou teremos de postular a sua existência de acordo com as exigências da razão prática; a existência de Deus torna-se então um postulado, não é ainda uma cognição. Comte chega à mesma conclusão.
- depois de provar que a existência de Deus não podia ser demonstrada, Kant, contudo, continuava a insistir em manter Deus, pelo menos como uma ideia unificadora na ordem da razão especulativa e como postulada na ordem moral da razão prática.
- mas Deus, afinal, existe?
- Deus não é um facto empiricamente observável. A proposição «Deus existe» tem de fazer, contudo, sentido, tem de ter, assim, valor racional e consistir numa resposta filosoficamente sustentável a uma pergunta de dimensão metafísica – porque Deus não é empiricamente demonstrável.
- o que constatamos até agora, desde a Idade Média até à Contemporaneidade, passando pela Modernidade, foi a completa incapacidade ou inabilidade do Homem demonstrar, pelas razões já ditas e contraditas aqui, que Deus existe, metafisicamente falando. Logo, podemos partir do pressuposto mais válido de que ele simplesmente não existe nem tem de existir, elidindo-se um problema da ordem metafísica, que, de per si, podia ser já uma não-questão.
- já descartámos aqui o Deus bíblico da Cristandade e do Judaísmo: mas não descartemos, por si só, a Natureza e as suas Leis, que são a Essência do Ser Humano, em torno das quais nascemos, nos desenvolvemos e com as quais morremos. Se essas leis foram criadas, ou têm um dono, ou estão subordinadas à vontade de algum Deus ou dos deuses, nunca saberemos realmente com cem por cento de certeza, porque fora do mero campo tanto científico, como metafísico, mas sabemos que estamos subordinados, completamente subordinados à Essência, que é o cumprimento estrito dessas mesmas leis da Natureza – podemos achar nelas – e aí começa o campo da religião, de todas as religiões – transcendência ou simplesmente o Acaso, que eu defendo.
- e temos, acima de nós, um Cosmos, do qual somos um pequeno Microcosmos. E nós, muito provavelmente, e falo da Criação do Planeta e do surgimento de Vida, fomos um mero Acidente do Cosmos, ou seja, um mero Acaso da própria Natureza – algo que não estava previsto, mas que, de alguma forma, funcionou.
- «onde a metafísica do homem termina, começa a sua religião», afirma-nos Étienne Gilson que, não obstante, faz uma acérrima defesa da existência prática de Deus através do seguinte argumento:
«Para além da interrogação: por que há seres organizados?», espreita uma mais profunda, que coloco utilizando os termos do próprio Leibniz: «Porque há alguma coisa em vez de nada?». Mais uma vez compreendo inteiramente um cientista que se recuse a colocar esta interrogação. Compreendo se ele me disser que a pergunta não faz sentido. Cientificamente falando, não faz. Metafisicamente falando, faz […] A questão suprema, a única resposta concebível é que toda e qualquer energia existencial, toda e qualquer coisa que exista depende, para existir, de um puro Acto de existência. De forma a ser a resposta última a todos os problemas existenciais, esta causa suprema tem de ser a existência absoluta. Sendo absoluta, essa causa é auto-suficiente; se cria, o seu acto criativo tem de ser livre. Como cria não apenas ser mas ordem, tem de ser algo que pelo menos contenha eminentemente o único princípio de ordem conhecido por nós através da experiência, nomeadamente do pensamento. Mas uma causa absoluta, que subsiste por si só e conhece não é algo mas alguém. Em suma, a primeira causa é o Uno em que coincidem a causa da natureza e da história, um Deus filosófico que também pode ser o Deus de uma religião».
