Já faz algum tempo, mais de um ano até, que terminei a leitura deste Um punhado de areia nas mãos, da minha amiga escritora, e professora, Maria João Ruivo. Não podia deixar, contudo, de lhe prestar aqui, neste meu espaço, algumas palavras, por mais pequeninas que possam ser.
Maria João Ruivo pôs-se, entenda-se, bastante difícil, para quem não sabe, ante esta sua primeira, e até agora única, obra publicada. Entendeu que este tinha de ser um passo cauteloso, sobre um firmamento também ele bastante fino, que é o da escrita; bastante frágil, que é o da publicação, o da partilha que não é, de si, apenas uma simples partilha como todas as outras de todos os outros escritores ou diaristas: esta é uma partilha bastante particular, sabe-se – esta partilha é um diário que carrega, em si, um diário dentro de si; é um legado que se partilha, cuidadosamente, de um ambiente intra-familiar, para uma atmosfera extra-familiar e, assim sendo, para toda uma comunidade aberta, num passo que eu diria ousado, como toda a escrita diarística implica [passos ousados, mas seguros e bem dados, bem medidos, bem acautelados].
Filha de um grande diarista e escritor açoriano, Fernando Aires, a professora Maria João seguiu o trajecto do pai e brindou-nos, na sua primeira incursão pelo mundo das Letras também pelo memorialismo diarístico, de que é perita, e cuja arte herdou dele mesmo, do pai, parece-me.
Escrever em diário nunca é fácil, nada fácil: implica uma abertura a que poucos estão dispostos. Implica um registo minucioso a que poucos se dispõem. Implica disciplina. Implica uma pré-disposição, uma abertura; enfim, implica toda uma comunhão de pareces interiores que só com um grande diarista a acautelar a viagem, a vigiar a retaguarda, se poderia tornar realidade: afinal, sem um grande pai, a ser o farol de todas coisas possíveis e impossíveis, não teríamos, talvez uma Maria João, biologicamente, nem teríamos esta Maria João Ruivo, diarista do Tempo e das Areias, das memórias e da fugacidade, talvez – mas toda uma outra Maria João – há, como nos diz João de Melo uma história insinuada por detrás de Um Punhado de Areia nas Mãos.
Maria João Ruivo, nesta sua primeira incursão, nesta sua primeira aventura, acautelou-se, é certo – mas conseguiu. Honrou. Venceu. Por alguma razão já fui tarde – e restaram-me, apenas, uns «segundos grãos de areia nas mãos», já que fui agarrar, apenas, a segunda edição, prova do sucesso do livro em questão, cuja primeira edição rapidamente, e em relativamente pouco tempo, se esgotou.
Acautelar a viagem; levar suprimentos; um cantil com água; uma fotografia de quem amamos; uma barrita nutritiva – a Maria João Ruivo preparou-se para a intempérie tumultuosa da escrita diarística, preocupando-se, talvez em demasia até, e respeitando imensamente, porque o conhece, o género literário em que se aventurou. Mas de uma coisa pode estar segura: Fernando Aires tem, para todo o sempre, e em todo o momento, a sua mão bem segura na sua – afinal o seu encontro agora é isto. Eu a escrever, seguindo os teus passos, insegura, como quando aprendi a andar e te dava a mão, na certeza de que nunca me deixarias cair.
Se a função, ou uma das funções de um diário, é percorrer os dias, o dia-a-dia, então de uma coisa podemos ter também a certeza: pela escrita libertamo-nos, um pouco, das amarras ferozes do Tempo. A escrita não se diminui a ser um mero paliativo; a escrita é um curativo – é sublimação. É, sobretudo, e acima de tudo, uma maneira de quebrarmos, de torcermos, as horas, como quem dobra a colher, e a nossa própria imagem reflectida, distorcida, nela. E Maria João Ruivo, neste seu pequeno diário, consegue, de certa forma, elevar-se acima do seu próprio Tempo – da mesma forma que o seu pai, Fernando Aires, em Era uma vez o Tempo, certamente, também o conseguiu – prodígio de quem enfrenta o toiro pelos cornos [chamando-o toiro].
