Manuel Alegre de Melo Duarte tem sido, desde que sou um leitor de poesia mais ou menos consistente, uma leitura assídua. Não por ser um poeta, digamos, propriamente maior da literatura nacional, mas por ser um poeta um tanto ou quanto particular nessa literatura – pela sua maneira tão sóbria, tão própria, de estrangular os fantasmas de um país – exteriores e interiores.
Uma das várias obras deste poeta que li foi Bairro Ocidental, que destaco neste meu blog, como sendo uma das melhores. A leitura de Manuel Alegre, neste livro, é uma leitura, com efeito, bastante corrida, sem pausas, de ritmos, de batidas, e de espasmos: é uma leitura de luzes e de imagens; de superfícies imaginadas e de críticas; de espadas e de lutas constantes contra barreiras e polícias de choque; de resiliência e de cicatrizes marcadas no focinho de uma nação ou, então, mais simples até, de um simples poeta.
É uma escrita política de um poeta, também ele, político, com uma visão política da poesia e do mundo. Como não recordar uma estrofe tão célebre do nosso Antero? – Ergue-te, pois, soldado do Futuro/ E dos raios de luz do sonho puro/ Sonhador, faze espada de combate!. Manuel Alegre consegue transportar-nos, com a sua poesia, em Bairro Ocidental, para a noção política das coisas, para uma mundividência crítica do Estado da Nação num determinado contexto político, económico, social, histórico de uma época.
Talvez por ter sido, também ele, censurado em tempos, Manuel Alegre não é de censurar – e elida quaisquer tentativas que se possam insurgir de calar o seu “eu” poético – não tem papas na língua, ante a situação e o contexto, ante num cenário Europeu. Aliás, a crítica fundamental deste livro é, partindo de uma localização geográfica, a condição periférica de Portugal, não esta exclusivamente geográfica, convenhamos, mas sobretudo económica e política – longe do eixo das grandes decisões europeias.
Livro publicado em 2015, este Bairro Ocidental insurge-se, num mapa de superficialismos, de défices, de estatísticas, de números, de ratings, de cotações, de palavras negativas, e de um magma de más conotações, como uma luz de que, ainda, há poetas vivos, e bem vivos, lúcidos, e bem lúcidos no espectro da poesia nacional. Afinal, e como escreve o poeta, Entre nós e o futuro há arame farpado.
Terminando, há aqui, premente, uma crítica ao centralismo das decisões europeias vigente – e mais ainda: há uma clara diminuição da condição portuguesa que, de secularizada e celebrada a partir de um Império que se estendeu até ao Oriente, surge-nos aqui reduzida a um simples Bairro Ocidental graças ao domínio dos países do eixo central da Europa – Alemanha e França, sobretudo, bem como de Bruxelas [centros das grandes decisões europeias].
Há, portanto, um grito de revolta muito grande – e que ecoa para a eternidade, num país estrangulado por normas europeias, por uma moeda federalista, quase, e por uma bandeira azul com estrelas que Manuel Alegre insiste em reduzir ante as quinas do seu, para sempre, e de sempre, Bairro Ocidental.
