“COM NAVALHAS E NAVIOS”, URBANO BETTENCOURT

Não sabia se ia estar à altura deste livro quando o comprei. Comprei-o, aliás, por três grandes razões: já tinha lido Urbano Bettencourt, em particular o outros nomes outras guerras, e sabia que ia gostar; em segundo, porque este Com Navalhas e Navios reúne a poesia de Urbano Bettencourt, e eu queria ganhar ainda mais noção da dimensão poética deste nosso poeta açoriano; e, em terceiro lugar: porque o Urbano é, simplesmente, um grande poeta e académico.

Confesso que, quando comecei a ler Com Navalhas e Navios, tive receio de não estar à altura do livro – e não: não estive à altura de alguns poucos poemas que custaram a atingir o coração [têm todos, mesmo?]. Mas, na grande generalidade, estamos perante Urbano Bettencourt, tal e qual, com Navalhas, é certo, mas com alguns Navios, pelo caminho, também.

A poesia de Urbano dava um bom diário – a bordo de Navios, a bordo de viagens, no bolso da vida, por onde passou, viveu e sofreu: quem já leu Raul Brandão, e As Ilhas Desconhecidas, deparar-se-á com um escritor que percorre as ilhas e que as canta em prosa – Urbano Bettencourt canta o genuíno ser-se açoriano em verso, porque o autêntico açoriano de Urbano Bettencourt está sempre presente, e é completamente transversal à sua poesia, creio. Mas mais do que isso: pela experiência, Urbano Bettencourt canta para além da margem do imaginário açoriano e transporta-nos para um cenário bélico de uma guerra injusta para quem a combateu.

Urbano partiu. Foi forçado a partir. Como tantos. Mas não queria partir. Queria ficar. Mafra é Mafra e eu sou livre, em tempos em que ditadores se acostumavam a furtar o futuro aos jovens. Urbano foi forçado a sair da ilha, mas a ilha nunca saiu, verdadeiramente, de Urbano – e por isso ele levou-a firme e a sós pelos Navios, afiando as Navalhas, com que a poesia, arma capaz, também se faz.

O poeta deste livro é tão livre quanto preso: livre porque encontra a sua liberdade na ilha, junto de quem mais ama e daquilo que mais ama; mas preso porque confinado a ela para ser livre – é um poeta em viagem, neste livro, mas que nunca deixou verdadeiramente de estar aonde realmente pertence e sempre pertenceu e sempre pertencerá: à ilha. Tem residência fixa, embora marinheiro, claro.

Urbano Bettencourt é um observador de um Portugal poente, usando uma poesia, em si, intemporal: nascente. Como lado opostos da mesma ilha, poesia e país, poente e nascente, Urbano tem o sabor do seu país na ponta da língua, na ponta dos dedos com que escreve os versos, mas não deixa de cantar, da ponta a partir da qual se distancia do que lhe fere a vista, e é mordaz, mas nem por isso menos popular, uma elegia.

A ironia mordaz, o sarcasmo – Urbano é um poeta capaz: um poeta capaz de denunciar os paraísos superficiais em que caímos, cegos como morcegos dentro da mesma gruta, batendo contra as paredes. Urbano Bettencourt é um dos maiores poetas açorianos vivos: e nós devemos-lhe a honra de uma vénia – por ser autenticamente nosso, nunca se tendo distraído pelo caminho – e tantas são as distracções mundanas no mundo de hoje.

Parabéns, Urbano. E obrigado.

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